quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

IX


- Jon! – Dei-lhe um abraço leve, seguido de um beijo na face - Como estás?

Ele olhou para mim, completamente surpreendido e esboçou um sorriso enorme, que teve o seu tanto de surpresa como de bebedeira.

- Miúda… Não esperava que viesses! – Atrás de mim, com as mãos enleadas em frente ao fato impecável, estava John, completamente à toa, e essa visão chamou-lhe a atenção – Vejo que trouxeste o teu amigo segurança da outra vez. A fazer progressos, ahn? – Ele fez um sorriso maroto, como que insinuando que estávamos juntos.

- Não, nada disso. O meu irmão é que não pode vir e então ele veio no lugar dele. Espero que não haja problemas…

- Não, claro que não! Estão à vontade! – O copo com bebida não parava de baloiçar nas suas mãos e tive de me afastar um pouco de forma a evitar um derrame para cima do meu vestido.

- Obrigado pelo convite! –Agradeci o mais sinceramente que pude.

Ele limitou-se a encolher os ombros e sorrir, tal era a sua despreocupação. Do seu lado direito deparou-se com outros colegas e ausentou-se, deixando-me perdida naquele caos de apartamento, em que quase não se conseguia respirar. Procurei o bar e dirigi-me até ele, sentando-me numa cadeira alta vazia encostada ao balcão.

- Alguma coisa? – Uma mulher loira, alta, que eu achava conhecer de algum lado, aproximou-se de mim, vinda de dentro.

- Hmm, sim! – Fitei os expositores cheios de bebidas mas não consegui decidir-me – O que me aconselha?

- Que tal a bebida especial do Jon?

Olhei em volta, tentando encontrar Jon em algum lado mas nem sinal dele.

- Venha ela! – disse, rindo timidamente. Não era de consumir bebidas alcoólicas mas estava num dia de festa e decidi arriscar.

Ela voltou para dentro da pequena divisória, onde preparava as bebidas e eu fiquei ali, à espera, olhando as pessoas que partilhavam aquele espaço. Notei algumas pessoas que conhecia e que já não via há algum tempo e esperava apenas ter a bebida em minha posse para ir cumprimentá-las. Já John, nem sinal dele.
Procurei alargar o meu campo de visão para outro nível de profundidade, onde me deparei com um casal em posições ordinárias praticamente deitados num sofá e umas quantas raparigas, a roçar o mesmo estilo ordinário, que dançavam com uns homens exibindo-se provocadoramente. Foi então que me ocorreu que aquelas raparigas não podiam ser consideradas “raparigas normais” mas sim strippers, strippers incrivelmente novas – as suas idades não deviam passar dos 20 anos. 
“Onde é que eu estou metida?”.

- Aqui tem! – A mulher voltou, trazendo na sua mão um copo de cocktail enchido com um líquido multicolor – As bebidas são por conta do Jon, por isso não tem de se preocupar com nada.

Sorri, agradada com a ideia de não ter de pagar por consumir e levantei-me cuidadosamente, para não esbarrar com ninguém. Tentei percorrer o mais calmamente possível aquele sítio, onde pessoas envergavam as suas máscaras, outras nem por isso (e eu já nem sequer sabia onde estava a minha!) mas tanto umas como outras estavam muito alteradas e qualquer passo em falso era um passe directo para um tombo redondo no chão. Encostei-me a uma parede e bebi um gole daquela bebida arco-íris. Toda a minha boca ardeu e esse ardor só cessou no interior do meu estômago, depois de ter queimado toda a minha traqueia. Mas o que podia ser considerada uma bebida muito forte, era abafada por um sabor agradável a amora e framboesa que nem era mau de todo! Olhei em redor, procurando caras familiares que já tinha visto há pouco mas não vi nada, nem mesmo John, que deveria estar de olho em mim – ou assim era suposto.

- Ahahahah!

Uma gargalhada estridente e dada com gosto captou a minha atenção fazendo-me olhar na direcção do som. Foi então que me deparei com John, escassos metros à minha frente, de costas, a conversar animadamente com uma mulher de cabelos pretos, traços finos e olhos claros, uma bomba no seu conjunto. Naquele momento, senti um vazio apoderar-se de mim, uma frustração enorme tomar conta dos meus instintos. Não estava habituada a sensações parecidas, já que o meu coração muitas vezes se parecia com um bloco de gelo inquebrável devido à minha incapacidade de me apaixonar ou de sentir qualquer tipo de carinho por alguém. Com John, as coisas eram diferentes e embora eu recuasse, negasse e tentasse fugir, não havia como não saber isso e no fundo, no fundo, eu era a mais sábia entendida no assunto. 
À minha memória assomou uma lembrança de infância, dos meus tempos de escola primária em Portugal, quando o Tomás, o rapaz mais bonito da escola e arredores e a minha primeira paixão beijou a Raquel, a quem eu costumava chamar “cobrinha” e que era a minha principal concorrência em termos de popularidade (não que isso fosse uma prioridade para mim mas ela foi, realmente, umas das pessoas que mais detestei). Lembro-me de ter chorado baba e ranho nesse dia e de o meu coraçãozinho tão infantil se ter retraído bem lá fundo, tornando esta uma das minhas piores memórias. No entanto, a tempestade veio acompanhada de coisas positivas e trouxe ao de cima uma acção que me era completamente desconhecida: a vingança! E lembro-me perfeitamente de nos dias seguintes não lhe ter dado a mínima importância e mais, lembro-me de ter começado a falar com o Tiago e de o Tomás ter ficado ruidinho de ciúmes quando percebeu que eu já não andava mais atrás dele. E ao lembrar-me de tudo isso percebi que uma lição do passado poderia aplicar-se perfeitamente ao presente, apenas com algumas variáveis.
Bebi a bebida de uma só assentada e dirigi-me a passos largos para o balcão, onde pedi outra ainda mais forte, que voltei a beber sem sequer pensar no que estava a fazer. Pedi uma terceira bebida mas, desta vez, decidi conter-me um pouco e comecei a deambular por ali, à espera de encontrar uma cara conhecida.

- Eih, eih, Maria!

Rodei sobre mim e deparei-me com Jon, já num estado lastimável – mal conseguia abrir os olhos e o seu sorriso era absolutamente ridículo – mas ele não vinha sozinho. Atrás vinha um rapaz novinho, talvez da minha idade, um pouco magro mas trabalhado (a sua camisa de manga curta fazia denotar os seus músculos secos), loiro e de olhos claros, que eu sabia conhecer de algum lado, talvez de uma revista ou algo de género, apesar de nunca mo ter sido apresentado.

- Eih – Ele envolveu-me com o seu braço forte – Tenho uma pessoa para te apresentar – Apontou para o rapaz, que esboçou um sorriso tímido mas que mostrou toda a sua dentição, perfeitamente alinhada – Este é o Steve!

Aproximei-me dele, virando a cara para que nos pudéssemos cumprimentar e para minha grande surpresa e atrapalhação, ele não me deu apenas um beijo na face mas sim dois e isso fez-me sorrir ao relembrar-me dos típicos cumprimentos portugueses.

- Maria Adams – Esbocei um sorriso igualmente cordial, não querendo transparecer a minha satisfação por finalmente conhecer alguém novo no meio de tantas caras desconhecidas.

- Maria, é claro que ele sabe quem tu és! – Jon passou por ele, dando-lhe um leve estalo no peito e dizendo-lhe qualquer coisa ao ouvido e depois seguiu o seu caminho, deixando-nos os dois ali sozinhos.

- Vou lá fora apanhar um pouco de ar, queres ir? – Ele teve de falar perto do meu ouvido pois a música começou a ficar gradualmente mais alta e demorei uns segundos para assimilar a sua proposta. Irmos lá fora quando toda a gente estava cá dentro? Tinha acabado de o conhecer, sabia lá quais eram as suas intenções… No entanto, não podia desperdiçar uma proposta deste género.

- Sim, sim, claro – Segui atrás dele e assegurei-me de que seguíamos o caminho que eu queria. E nem foi preciso ser eu a mostrar-lhe esse caminho pois ele acabou por lá ir parar.

Passámos mesmo próximos de John e da sua amiga misteriosa e foi com satisfação que notei que a nossa presença não lhes passou despercebida. Encaminhámo-nos para a porta e saímos sorrateiramente, deixando-a encostada para quando quiséssemos voltar para dentro. Ele sentou-se nas escadas que conduziam à entrada da casa e eu sentei-me ao lado dele, já sem querer saber do vestido.

- Então quem é ele?

- Desculpa? – Aquela pergunta tinha-me deixado à toa e olhei para ele, franzindo a testa.

- A pessoa… - Ele tirou do bolso das suas calças um cigarro e colocou-o na boca, preparando-se para o acender – A quem tu queres fazer ciúmes.

Olhei para ele, incrédula. Das duas, uma: ou ele era incrivelmente perspicaz ou então havia mão de Jon em toda aquela situação. Limitei-me a rir, resignada à posição em que ele tinha acabado de me colocar.

- De certeza que há aqui algum mal entendido…

- Foi o Jon que me disse – Ele riu-se, divertido, ao mesmo tempo que levava o cigarro à boca, já aceso – Não te preocupes, não digo a ninguém. Até te posso ajudar…

A sua proposta aliciante fez-me rir e limitei-me apenas a fazer isso, já que acabei por ser correspondida por ele.

- Estás doido! – Preparava-me para me levantar e voltar para dentro. Eu não estava assim tão bêbeda para alinhar numa loucura daquelas; já não era uma criança desesperada. Senti uma mão quente puxar-me pelo pulso e obrigar-me a assumir a minha posição sentada novamente.

- Dou-te cinco segundos para ele aparecer aqui! – Ele expeliu todo o fumo para fora e pousou o cigarro no canteiro que se encontrava ao seu lado. E depois, tão de repente que nem tive tempo de reagir, senti uns lábios quentes virem contra os meus e duas mãos a envolverem-me as faces, não me deixando resistir a tamanha impertinência. Ele afastou os seus lábios dos meus assim que alguém tapou a sombra que vinha de dentro e pegou no cigarro, olhando para mim uma última vez e piscando-me o olho. Levantou-se no sentido da porta e tudo o que ouvi de seguida foi ela a fechar-se mas eu sabia que alguém se mantinha imponente, ali, bem atrás de mim.
**
Ele acabou por sentar-se ao meu lado, ao perceber que não estava disposta a dizer nada. Sentia-me envergonhada e chocada com o que tinha acabado de acontecer, tão imprevisível que nunca poderia ter adivinhado. De todas as formas possíveis para chamar a sua atenção, aquela seria certamente o meu último recurso. E, no entanto, tinha acabado de acontecer: eu tinha acabado de beijar uma pessoa que conhecia nem há dez minutos, numa festa onde todos eram incógnitas e onde todos agiam de forma alterada. Isso fazia de mim uma pessoa igualmente alterada, apesar de a culpa não ter sido minha – pelo menos não na teoria. E agora procurava engendrar uma boa desculpa (se é que teria de dar alguma!) para justificar o meu comportamento no mínimo surreal.

- Estás bêbeda? – Ele dobrou os joelhos e apoiou ambos os braços nas suas pernas, olhando o céu repleto de estrelas. Parecia muito melancólico.

- Não… - Queria explicar-lhe tudo e contar-lhe toda a verdade mas a coragem teimava em fugir de mim, daí a minha voz sair como um sussurro, quase imperceptível.

Ele anuiu, sem nunca olhar para mim e na sua boca desenhou-se um sorriso céptico, como se acabasse de constatar algo que tivesse mexido com a sua cabeça.

- O que foi? – Perguntei um pouco a medo, pois sabia que dali não poderia sair boa coisa.

- Nada, nada – Ele abanou a cabeça, desvalorizando a situação – Só não te fazia assim…

Ele fitou-me durante breves segundos, num olhar que não consegui descodificar mas que me magoou, pois, de certa forma, vi nele um quê de desilusão. Mas porque haveria de estar desiludido? Nós mal nos conhecíamos, para não falar de que ele era o principal apologista de que em relações profissionais uma simples conversa pessoal era inaceitável e, tendo em conta todas as nossas diferenças e desavenças, avanços e recuos, não haveria nada que ele pudesse esperar de mim. “…Acredita que tu nunca ias querer envolver-te comigo!” – a afirmação proferida por ele há umas semanas atrás ecoou na minha cabeça, sustentando ainda mais a minha tese. Havia qualquer coisa na nossa relação (se se pode chamar isso) que não batia certo e isso incomodava-me, incomodava-me tanto que jurei estar prestes a rebentar e deitar tudo cá para fora, com vista a esclarecermo-nos mutuamente.

- Então como me fazias? – Perguntei, tentando manter a calma e procurando obter qualquer resposta, por mais irrelevante que fosse, que me desse mostras de que era seguro avançar.

- Não sei… - O seu olhar tornou-se lívido, mais uma vez, assim como tinha ficado no dia em que ele afirmou aquela terrível frase – Não te fazia assim, a beijares um desconhecido numa festa como esta.

A forma como falou denotou o maior desdém que alguma vez tinha ouvido da parte dele. Não só em relação à festa mas também em relação a mim. E eu que me achava do mais correcto que pode existir.

- Não foi bem o que pareceu…

- Ai não? – Ele interrompeu-me, não me deixando continuar a minha explicação – Ouve, eu não tenho nada a ver com a tua vida…

- Então porquê isto? – Interrompi-o, levantando-me e prostrando-me à sua frente, como quem quer marcar uma posição – Se não tens nada a ver com a minha vida porque é que estás tão importado?

- Mas eu pareço-te importado? – Ele olhou-me fixamente, tão sério como eu nunca o tinha visto mas mesmo assim difícil de descodificar – Eu só te estou a avisar que isto não te fica bem! Já o tinhas visto alguma vez na tua vida? Sabes, pelo menos, o nome dele?

A resposta era não às duas perguntas. E, apesar de não querer mentir, não queria que ele me julgasse por uma coisa que eu nem sequer tinha planeado. Ambos tínhamos sido apanhados de surpresa. Não podia dizer que não tivesse passado pela minha cabeça um esquema do género, mas conhecendo-me em pleno, seria incapaz de o pôr em prática. E agora ainda reforçava mais essa ideia, ao ver que não tinha sortido qualquer efeito nele.

- Não é da tua conta, John! Eu faço o que quiser e tu não tens absolutamente nada a ver com isso. Não és meu pai, não és meu irmão e nem sequer és meu amigo! – Contornei-o, procurando atingir a porta que dava acesso ao interior da casa mas estanquei assim que ouvi o som de algo a rasgar-se. Inspirei fundo, tentando não entrar em pânico com o que sabia ter acontecido e virei-me, para constatar o que sabia ser verdade. Uma grande parte do meu vestido estava rasgada, formando como que uma racha no lado direito, deixando a minha perna toda à mostra. Olhei para John, pois sabia que ele o tinha puxado e contive-me ao máximo para não lhe mandar com um Jimmy Choo em cheio na cabeça. Mas depois pensei que ele não valia nem isso! – EU NÃO ESTOU A ACREDITAR! O que é que tu fizeste? – Apontei para a racha, esperando uma reacção dele mas tudo o que recebi foi um riso abafado pela sua mão fria.

- Não sabia que ele se ia rasgar… - O riso cínico dele fez-me perder a paciência e lancei-me a passos largos para o portão, de forma a sair dali o mais depressa possível.

- Maria, espera! – Senti-o aproximar-se de mim, quase a correr, até me conseguir alcançar o braço e rodar-me para si.

- Importas-te de me largar?

Olhei, furiosa. Soltei o meu braço da sua mão o mais bruscamente que consegui e fitei-o, tentando demonstrar através de um simples olhar, toda a raiva que continha cá dentro. Pensei que ele fosse dizer alguma coisa mas ele não o fez e em vez de recuar, ainda avançou mais, deixando a sua cara a poucos centímetros da minha e o seu olhar preso no meu. Assim que senti toda aquela pressão, vi-me obrigada a desviar o olhar e contemplei o jardim que nos rodeava: estávamos completamente sozinhos, a noite estava fria e húmida (pouco comum na altura, mas já era sinal da aproximação do Outono) e o único som que se fazia ouvir era o dos carros que buzinavam do lado de fora.
Senti-me enfraquecer perante aquele olhar doce que ele teimava em fazer e dei um passo atrás, disposta a afastar-me, já que a atracção era cada vez maior.

- Estás a fugir, é? – Ele voltou a aproximar-se, como se estivéssemos a jogar ao jogo do gato e do rato.

- Eu não! – Olhei-o, franzindo a testa. Um nervosismo em grande escala percorria agora o meu corpo, à medida que pressentia o que estava para vir. O charme que ele me estava a lançar, era absolutamente irresistível e eu nunca tinha conhecido ninguém tão capaz disso como ele – Apenas… afasta-te! – Formei uma barreira com as minhas mãos ao pousa-las no seu peito em sinal de stop.

- Tu estás com medo! – Ele riu-se, fazendo aquilo parecer algo que ele faz diariamente. Eu ali, com as pernas a tremer capaz de se notarem a metros de distância e ele a rir-se como se aquela situação fosse banalíssima.

Abanei à cabeça e fui andando para trás, sempre seguida por ele, até embater contra o muro, que não me deixou qualquer espaço de manobra. Que joguinho seria este que ele estava a fazer? Há pouco parecia que não queria saber e agora estava a poucos centímetros de mim, sem me dizer nada e a olhar-me fixamente! Esperava ardentemente que tudo aquilo não fosse apenas uma forma de me deixar nervosa, uma forma de me irritar…

- Ouve, John… - Baixei os olhos, deixando-os cair sobre a sua boca, perfeitamente delineada – Não sei o que é que se está a passar mas nós temos mesmo de ir embora! – Ele manteve-se em silêncio, rebentando com a minha paciência – Importaste de te afastar? O que é que tu queres? Há pouco estavas a repreender-me e agora…

A sua mão ajeitou-se na minha nuca e ele uniu os nossos lábios num beijo terno e suave. Tentei resistir, já que ele não me tinha dado sequer tempo para respirar, mas acabei por não conseguir, à medida que ele tentava entrar lentamente na minha boca, com movimentos leves e carinhosos. Deixei-me levar e pousei a minha mão no encaixe do seu pescoço, aproveitando cada momento daquele beijo que eu tanto esperei que acontecesse. Com o mesmo carinho com que me puxou para si, ele separou as nossas bocas, dando-me um beijo leve nos lábios e deslizando a sua mão nos meus cabelos compridos até a pousar no meu braço. 
Abri os olhos, completamente fora de mim e não querendo acreditar que aquele momento tinha mesmo acontecido. Fiquei estática, encolhida no meu canto e ao olhar para ele, um sorriso sincero delineou-se nos seus lábios. A minha cabeça bloqueou ao ver aquela reacção e eu não tive coragem de dizer nada, não naquele momento. 

Aqui vos deixo mais um capítulo! 
Apenas quero avisar a todos os meus leitores que não sei quando postarei um capítulo novo pois a escola e tudo o mais atrapalha um pouco a minha escrita. No entanto, posso adiantar, que um novo capítulo já está a ser escrito.
Espero que gostem! 
Maria * 

domingo, 22 de janeiro de 2012

VIII


Tinha-se passado uma semana.
Uma semana que passou rapidamente, sempre na companhia do meu irmão e com presenças aqui e ali e ginásio todos os dias, o que tornou difícil aproveitar a sua companhia ao máximo. Ele iria voltar para Portugal amanhã, para junto da minha mãe (que já tinha voltado de Itália mas, mais uma vez, sem o namorado) e eu iria ficar ali, naquela enorme cidade, praticamente sozinha – ainda mais sozinha depois de saber que o meu pai iria ausentar-se em negócios com a sua firma de cosméticos, deixando Meg, antiga secretária de Hugh, temporariamente como minha manager. E tendo em conta que John andava a evitar-me, a semana que me esperava iria revelar-se extremamente complicada do ponto de vista emocional.
 “Ai, como me fazia falta um namorado”, pensei, enquanto me deliciava com o meu iogurte cremoso, enroscada nos meus cobertores polares e com Sasha do meu lado, a dormir que nem um anjo. Tentei entreter-me com a televisão e deixar de lado, durante uns instantes, a leve depressão que insistia a apoderar-se de mim, apesar da minha retaliação. Sentia-me realizada profissionalmente, mas no meu campo pessoal a minha vida estava uma lástima. Estava tão lastimável que muitas vezes dava por mim a chorar sem nenhuma razão aparente, não fosse John e a sua indiferença os principais suspeitos do meu estado. Depois daquela conversa no carro em que ele me tinha deixado um aviso – ou seria um conselho? – não voltámos a falar, apenas nos cumprimentávamos casualmente, quando surgia a oportunidade.

“A drop in the ocean, a change in the weather, I was praying that you and me might end up together. It's like wishing for rain as I stand in the desert, but I'm holding you closer than most, 'cause you are my heaven…” O meu telemóvel começou a vibrar e a tocar uma das minhas músicas preferidas e tive de esticar o braço para conseguir alcançá-lo, vendo no ecrã o nome de Meg e apressando-me a atender.

- Hello Meg – Esbocei um sorriso e fiz uma voz amigável.

- Boa-noite Maria! Posso dar-te uma palavrinha?

- Sim, sim, claro Meg – Liam já estava a dormir e eu estava tranquila, sem ninguém que me pudesse perturbar – Podes falar.

- Só queria dizer-te que recebi uma chamada de um senhor chamado Jon Kor… - Interrompi-a, pois percebi que iria ser complicado a pronunciação do nome de Jon e disse-lhe o seu apelido correctamente – Pronto, isso mesmo! – Ela largou um riso divertido – Esse senhor ligou para aqui e convidou-te formalmente para uma festa de máscaras na sua casa, amanhã à noite, em Manhattan. Devo dizer-lhe o quê?

- Ai sim? Que simpático da parte dele – Hesitei um pouco para pensar na minha agenda para o dia seguinte – Eu acho que não há problema se for, há? Não tenho nada agendado para amanhã, pois não?

- Tem a agenda limpa, menina.

- Ok, então pode ligar para o Jon e confirmar, Meg, por favor. Posso levar companhia? – Não tinha quem levar pois Liam já tinha coisas combinadas com uma amiga misteriosa mas a pergunta saiu-me quase por apatia.

- Sim, pode. O senhor até disse que podia levar o seu amigo John – Franzi a testa, surpreendida com aquela revelação mas fiquei completamente amedrontada com o facto de Meg associar a John a palavra “amigo”.

- Ah sim? Óptimo! – Tentei mostrar-me entusiasmada com tudo aquilo mas a verdade é que estava nervosa com aquela pressão sem intenção exercida por Jon – Obrigado Meg. Boa-noite.

Desliguei a chamada e lancei o telemóvel para o sofá, fazendo ricochete e caindo no chão, não me deixando absolutamente nada perturbada. Estava chateada com tudo aquilo que se estava a passar mas principalmente com a indiferença de John, que me tinha deixado de rastos nesta última semana. Como era óbvio não ia convidá-lo para a festa mas isso era tudo o que mais queria. Aconcheguei-me a Sasha e fiquei assim durante uns minutos, até o sono tomar conta de mim.
**

Liguei para Olivia assim que saí do ginásio. Ela mostrou-se atenciosa como sempre mas não pode satisfazer os meus pedidos: queria algo elaborado, digno de um baile de máscaras (como eu achava que todas as pessoas iam) mas devido ao curto tempo que ela tinha, ia tornar-se muito improvável arranjar algum vestido com os requisitos que eu pedi. No entanto, confiava no seu bom gosto e o que quer que fosse que ela trouxesse, era o que eu ia vestir.

- Então princesa? – Liam chegou perto de mim e envolveu-me num abraço ainda suado – Que carinha é essa?

- Oh, só agora é que me lembrei de ligar à Olivia para lhe pedir o vestido para hoje à noite e, pelos vistos, ela não vai conseguir arranjá-lo.

- Oh – Ele envolveu a minha cara no meio das suas mãos quentes – Tu vais linda de qualquer maneira, não te preocupes.

Anuí, tentando animar-me um pouco. Ficava assim quando algo não corria da forma que eu pretendia, mas isso era porque eu estava claramente mal habituada. Era só estalar os dedos e as coisas apareciam perfeitas.

- Eih, e o John? Nunca mais o vi! – Ele pegou na sua toalha e limpou a cara, que escorria por todos os lados – Está dispensado ou assim?

Abanei a cabeça.

- Não, só que como estás aqui, ele não precisa de andar sempre atrás de mim – Encolhi os ombros, denotando alguma mágoa na minha voz mas que esperava que Liam não tivesse notado.

Ele lançou-me um olhar interrogador, como que procurando alguma coisa nos meus olhos que não tivessem sido ditas. Já sabia que ele ia começar a disparar em todas as direcções assim que soubesse que eu estava sentida mas, para minha surpresa, ele não o fez.

Seguimos os dois para a casa de banho privada, onde tomámos um banho rápido alternadamente. Vesti uma roupa simples, já que iria directamente para casa: uma camisa com uma camisola de malha leve por cima e umas calças de ganga com umas sabrinas pretas, para poder andar confortável pelas ruas da cidade. 
- Vens? – Liam estava sentado no pequeno banco daquele cubículo agora quase a arder, devido ao vapor de água emitido. Mais um segundo ali e era o mesmo que não ter tomado banho.

- Hmm – Ele hesitou, ao mesmo tempo que pegava no telemóvel e mandava uma mensagem – Tenho umas coisas combinadas. Coisas rápidas – Tentei falar mas ele continuou – Uma hora e estou em casa.

Alardeei e lancei um olhar chateado.

- Passeio a Sasha quando chegar – Ele esboçou-me um daqueles sorrisos irresistíveis e acabei por ceder à sua chantagem, saindo com um sorriso nos lábios.

Acenei a Yana, que como sempre estava confinada ao balcão da recepção do ginásio e saí, com a minha mala de treino numa mão e a minha mala de dia noutra. Hoje o treino tinha sido puxado e senti-me completamente exausta, passando-me pela cabeça por momentos que o melhor mesmo seria desmarcar com Jon e ficar em casa a assistir a um filme para chorar e afogar as mágoas. Abri a porta do carro e comecei a colocar lá dentro a mala quando um carro que me era familiar estacionou mesmo ao meu lado. Tentei manter-me indiferente mas o meu corpo deu logo mostras do meu nervosismo. Desisti de ajeitar a mala no assento de trás e precipitei-me imediatamente para o lugar do condutor, desejando que ele não me tivesse visto. Mas já tinha sido tarde.

- Olá Maria – Ele aproximou-se do meu vidro, vendo-me obrigada a abri-lo.

- John! – Fiz a voz mais entusiasmada do mundo, mas só um cromo não percebia que estava a ser sarcástica – Então, está tudo bem?

- Sim, tudo óptimo!

Anuí, esboçando um sorriso do mais falso que me foi possível e liguei a ignição, disposta a deixar aquele local.

- Estás a fugir de mim, é? – Aquela pergunta saiu-lhe de repente e apanhou-me completamente desprevenida, deixando o meu coração a bater descompassadamente.

- Eu? – Ri-me baixinho mas mostrei o meu melhor tom de ironia – Claro que não! Porque haveria de fugir de ti?

- Fazes isso parecer a coisa mais estúpida do mundo! – “Claro que é a coisa mais estúpida do mundo”, pensei – É por isso que não acredito em ti.

Fitei-o, mostrando-me surpreendida com a sua perspicácia e persistência. O que é que lhe teria dado para vir falar comigo assim de repente?! Esta pergunta ecoou na minha cabeça mas seria uma pergunta sem resposta pois não pretendia fazê-la a John.

- Ouve, John… - Desliguei o motor do carro e tirei a chave da ignição com brusquidão, mostrando-me mais arreliada do que aquilo que queria transparecer – Passaste tanto tempo sem dizer nada, porquê agora? Tens algum problema comigo? Não percebo que mal é que te fiz pois a única coisa que sempre quis foi manter uma boa relação contigo e tu nunca deixaste que tal acontecesse… Só quando te apetece é que vens falar comigo? – Parei um pouco para respirar – Para mim, chega! Podes ir falar com o meu pai e pedir a demissão.

- És…

- Não, calma! – Arregalei os olhos, tentando fazer o meu melhor ar ameaçador, repreendendo-o pela ousadia da sua interrupção – Eu sei que nós nem sequer devíamos estar a ter este tipo de conversa, isto não é nada profissional, mas a verdade é que não aguento mais e isto é a primeira vez que me acontece – Mostrei toda a minha frustração, tudo aquilo que sentia em relação à nossa estranha ligação, que um dia estava bem e no dia a seguir estava virada do avesso. E por muito inconstante que fosse, não precisava de mais problemas do género para a minha vida já bastante atormentada.

- Maria… - Ele levantou a mão, como se pedisse permissão para falar – Posso?

Olhei para ele, completamente esbaforida depois daquele discurso sentido e não me sentia minimamente preparada para mais daquele assunto, que para mim, já estava mais que terminado. Fiz sinal afirmativo, disposta a ouvir o que ele tinha para dizer.

- És sempre assim tão precipitada? – Ele debruçou-se um pouco mais sobre a janela descida e sorriu, divertido.

- E tu ainda te ris? – Inquiri, incrédula com o que acabava de testemunhar – Não há nada de engraçado no que eu disse.

- Maria… - Ele agarrou no meu braço, que não parava de gesticular e aquele toque prendeu-me todos os músculos que se contraíram instantaneamente – Tens de ter mais calma. Eu sou teu segurança… Quer dizer, nós nem sequer somos amigos.

Aquele comentário deixou-me boquiaberta. Dentro da minha cabeça imaginava um sincero pedido de desculpas pelo seu comportamento instável ou uma verdadeira intenção de reverter a situação em que nos encontrávamos, para tornar o ambiente bem mais acessível entre nós. Mas não. Em vez disso, parecia que estava a gozar com a minha cara e eu não estava nada disposta a lidar com isso. Sacudi o braço de forma a libertá-lo da sua mão coberta de veias salientes que advinham do seu braço musculado e coloquei a chave na ignição, arrancando com o meu Audi de forma a não lhe dar hipótese de sequer respirar. Ainda tive oportunidade de olhar pelo retrovisor e vê-lo a cumprimentar o meu irmão que acabava de sair e, surpresa das surpresas, pareciam bastante amiguinhos na conversa que se seguiu. Virei a esquina, olhando uma última vez e fiquei surpreendidíssima quando vi que eles os dois ainda mantinham uma conversação.
**
- Uau, estás tão linda!

Liam bebia um copo de champanhe encostado ao balcão da cozinha quando me viu acabadinha de vestir, com o vestido púrpura que Olivia me tinha deixado e que não fazia bem o meu género, mas era, sem dúvida, um vestido muito bonito e também a minha única opção. 
- Gostas? – Rodei sobre mim própria, tentando mostrar-lhe o vestido sob todos os ângulos – Ideias da Olivia.

Ele pousou o copo em cima da bancada e caminhou até mim, com aquele seu jeito elegante, em perfeita sintonia com o fato de traços finos que ele envergava.

- Estás perfeita! – Pousou as suas mãos nos meus ombros despidos e beijou-me a testa – E a máscara?

Mostrei-lhe a máscara que albergava na minha mão direita, preta, com brilhantes e muito simples. Não queria exagerar no conjunto.

- Estás linda princesa! 

- Ainda bem – Sorri-lhe carinhosamente e calcei os sapatos Jimmy Choo, já utilizados várias vezes – Pena que sejas o único a dizer-me isso.

Ele sorriu mas pude perceber que ficou sentido com o meu comentário triste, vindo de alguém que tinha sérios problemas na sua inexistente vida amorosa.

- Ah, já agora… - Ele voltou a agarrar no copo, dando-lhe um gole leve e sentou-se no sofá, aconchegando Sasha no seu colo – Vou ter companhia esta noite e gostava de saber se não te importavas que a trouxesse para aqui…

Ele hesitou no final do seu pedido, claramente com medo da minha reacção. Repreendi-o com o olhar mas acabei por anuir pois não queria fazer-lhe tal desfeita. Levantei-me, pronta a ir buscar o meu clutch mas vacilei quando o som da companhia se fez ouvir. Olhei para Liam, esperando que fosse a sua convidada mas ele encolheu os ombros, esclarecendo-me. Apressei-me até à janela, procurando por jornalistas que pudessem ter entrado dentro do prédio mas não havia sinal de nenhuma agitação suspeita do lado de fora.

- Era nestas alturas que um daqueles óculos de ver o lado de fora fazia falta – Praguejei, ao mesmo tempo que em encaminhei a passos largos para a porta, abrindo-a.

- John?

Arregalei os olhos, completamente surpreendida. John estava prostrado à minha frente, com um fato de corte fino que me pareceu ser Hugo Boss e que lhe assentava na perfeição – aliás, parecia que tinha sido feito especialmente para ele. Na mão direita trazia uma máscara muito simples e discreta, a condizer com o seu conjunto. Rodei a cabeça e olhei para Liam, que se ria baixo e divertido, bebendo o seu champanhe e olhando a televisão. E foi aí que um clique se fez na minha cabeça e que percebi que aquilo tudo não passava de uma invenção dele. Respirei fundo, tentando controlar os meus instintos que me impeliam a chegar perto dele e desonrá-lo de tudo e olhei para John, que me pareceu realmente nervoso: não parava de ajeitar a gravata e o cabelo.

- Que surpresa! – Não fui entusiasta, limitei-me apenas a constatar a sua presença.

- Recebi uma chamada do Jon…

- Ah foi? – Não o deixei terminar e lancei-lhe um sorriso de desdém, antes de voltar a minha voz para Liam – Liam eu sei que tu é que estás por detrás disto!!

Ele levou as suas mãos à cabeça, como se alegasse pela sua inocência.

- Eu?

- Seu estúpido! – Peguei no meu clutch e saí porta fora, tentando evitar que as minhas acusações se tornassem bem piores.

Arrepanhei o meu vestido e segurei-o com a mão esquerda, pois não queria rasgá-lo no caminho até lá a baixo. Entrei no elevador e marquei o piso -1, que dava acesso às garagens e onde o Audi A7 “nos” esperava. As portas deram sinal de fecho e pensei mesmo que John não iria apanhar o mesmo elevador. Engano! Quando as portas já se estavam mesmo a encostar, um braço surgiu do lado de fora, fazendo-as vacilar como se fossem contra um muro e empurrando-as, afastou-as por completo, entrando naquele quadrado minúsculo. Ele carregou no botão onde eu anteriormente tinha carregado e ajeitou o seu fato, mostrando-se bastante preocupado no que toca à sua aparência.

- A gravata está mal apertada – Quebrei ao silêncio ao constatar esse facto. Ele fitou-me e depois olhou logo para o espelho que cobria uma das paredes do quadrado de metal, tentando consertar o emaranhado de nós daquela gravata.

- Mas o que é isto? – Ele praguejou, quase a entrar em desespero.

- Deixa-me ver! – Pelo seu olhar, acho que ficou surpreso com a minha atitude mas assim que me viu aproximar, levantou um pouco o queixo de forma a deixar-me ver. O emaranhado de nós que para ali iam eram bastante fáceis de resolver comparativamente com o seu cheiro arrebatador, agora ainda mais forte, devido à proximidade a que me encontrava do seu pescoço. Era um cheiro tão intenso que era capaz de compelir qualquer pessoa. E o pior de tudo era que só dava vontade de cheirar mais, mais e mais. Durante uns segundos, mexi na gravata mas as voltas que estava a dar não faziam qualquer sentido tendo em conta que eu estava completamente inebriada pelo seu cheiro. Só quando o elevador se abriu, dando-nos uma vista completa sobre toda a garagem é que voltei a cair em mim e me apressei a ajeitar o seu nó, atando-o de novo. – Pronto! – Deixei cair as minhas mãos sobre o seu peito e os meus dedos percorreram toda a extensão do seu colarinho, até chegarem aos botões.

- Hm, hm!

Um som de aviso de presença ecoou no elevador, o que me fez dar um salto enorme para trás, voltando a encostar-me à parede de onde nunca deveria ter saído.

- Dona Elise! – Olhei-a, petrificada, à medida que ela pegava nos seus sacos de compras e entrava no elevador.

Elise Donovan é a minha vizinha do lado desde o dia em que me mudei para Nova Iorque. É uma senhora já com alguma idade, viúva, que vive a sua vida humilde à custa do rendimento da sua reforma quase milionária derivada da música “All I want for Christmas is you”, escrita por ela. Ou seja, todos os direitos da música são praticamente seus por direito e também por lei. É uma senhora afável, sempre disposta a ajudar apesar de ter uma pequena (grande) tendência para se envolver em assuntos pessoais que não lhe dizem respeito e, como é normal em casos desses, a vida de todas as pessoas daquele prédio passam pelas suas mãos, indirectamente.

- Olha, o novo inquilino! – Ele fez um sorriso amigável a John, que retribuiu – Pensei que era seu segurança, menina Maria…

- E é! – Apressei-me a dizer, antes que aquela constatação atingisse áreas imaginárias da sua mente – Só isso, Dona Elise!

Lancei-lhe um sorriso atrapalhado e, apanhando o meu vestido, saí a passos largos do elevador, seguida de John, que parecia bastante divertido com a situação embaraçosa que tínhamos acabado de passar. Depois daquilo, não iria chegar perto dele durante toda a noite. Mas nem eu, nos mais profundos recantos do meu pensamento, sabia o que estava para vir…